Com objetivo de acabar com o tráfico, há 40 anos o Mundo declarou Guerra às Drogas. Deu certo? Não. O problema só aumentou. O que antes era um problema só de Saúde, hoje é de Saúde e de Segurança. Infelizmente precisamos esperar 40 anos para notar que esta estratégia é um erro. Na realidade apenas alguns notaram, outros continuam pensando que esta guerra só não deu certo porque não foi intensa o bastante e segundo estes, portanto, deve-se intensificá-la.
Acredito que deve-se acabar com a Guerra às Drogas, mas acredito que só isto não basta, é necessário, também, legalizá-las. Há anos ouço falar da legalização da maconha, mas só há pouco tempo ouvi falar da legalização de todas as drogas. Num primeiro momento é difícil gostar da idéia de tornar legal “monstros” como cocaína, heroína, crack ou óxi. Mas analisemos a situação. Primeiro que o fato de ser ilegal pouco dificulta a aquisição de drogas por parte do usuário, quem quer comprar compra. E agora listemos os problemas causados pela existência do tráfico de drogas:
- morte de inocentes, traficantes e policiais quando da invasão da Polícia nas áreas dominadas pelo tráfico;
- morte dos “X-9”, aqueles que deduram os traficantes;
- morte de traficantes na guerra entre facções por território;
- introdução de armas de fogo em regiões onde antes estas não existiam.
- a venda das drogas;
Observe bem quantos destes problemas continuariam existindo se a Guerra às Drogas terminasse hoje. Dos problemas listados, as mortes de inocentes, traficantes, policiais e “X-9” deixariam de existir com o fim da invasão das favelas por parte da Polícia. Continuariam existindo a venda de drogas, a morte de traficantes devido a guerra existente entre as facções criminosas e a introdução de armas de fogo em regiões onde estas não existiam.
Mas agora observe que, ao legalizar as drogas, dois destes problemas deixariam de existir e um continuaria existindo mas diminuiria em intensidade. O tráfico terminaria, e com ele acabariam as guerras entre traficantes e a introdução de armas em comunidades onde antes estas não existiam. E a venda de drogas deixaria de ser um problema tão grande na medida em que a venda das drogas seria controlada e poderiam ser adotadas estratégias de tratamento para viciados com o uso das próprias drogas (o que hoje é impossível visto que são tratamentos ilegais). Entre estas estratégias estariam, por exemplo, a diminuição progressiva no “peso” da droga usada pelo viciado (o viciado em crack passa a usar cocaína, depois maconha, por exemplo), o que tornaria o processo menos brusco e mais eficaz; usar maconha para amenizar crises de abstinência de outras drogas mais pesadas; centros de utilização controlada de drogas. No Canadá existem centros assim, o viciado utiliza a droga em um ambiente protegido, com médicos, utilizando, se forem drogas injetáveis, seringas limpas (diminuindo a incidência de doenças transmissíveis por seringas compartilhadas, como a AIDS) e, de quebra, estão a disposição, nestes centros, profissionais destinados a tratar o vício. Quando o viciado quiser, ele procura estes profissionais. Com a legalização das drogas poderia se começar a usar a maior arma de combate ao vício: as próprias drogas.
E por que o Estado então não legaliza de uma vez as drogas se são tantas as vantagens?
Primeiro: as guerras entre traficantes e Polícia e ente as próprias facções criminosas, e isto é confirmado por uma autoridade policial no documentário “Uma Guerra Particular”, serve como forma de repressão preventiva, por assim dizer, da população das favelas, formada por pessoas que anseiam por condições melhores de vida, que desejam sentir a presença do Estado não só através da Polícia. Ou seja: a guerra contra o tráfico mantém o favelado preso na favela, sem que incomode a gente “do asfalto”.
Segundo: só na cidade do Rio de Janeiro mais de cem mil pessoas tem seu ganha pão no tráfico de drogas. Com o fim do tráfico o que se faz com tanta gente desempregada que só se soma à já grande parcela sem emprego da sociedade? Seria um problema bem grande para o Estado. (aliás: um operário do tráfico, além de correr, constantemente o risco de ser morto, recebe um salário pequeníssimo e tem carga-horária, algumas vezes, de 18h diárias. É impossível não achar que só está nesta profissão por falta de opção. Mais um motivo para se dar a culpa pela existência do tráfico ao Estado.) A situação só piora ao considerar-se o fato de que seriam milhares de desempregados que sabem manusear armas, muitos deles ainda teriam as armas que usavam quando eram traficantes e com o instinto violento que os garantia vivos no seu antigo “emprego”. Seria uma quantidade enorme de desempregados e potencialmente violentos.
Terceiro: com o fim do tráfico não haveria mais desculpas para o Estado não entrar nas favelas e agir lá para melhorar a vida destas comunidades.
Quarto: numa estrutura mais “macro” poderia colocar como problema ainda, o fato de ser de grande interesse das máfias multinacionais, a produção de armas e munições.
Poderia se dizer, para resumir, que tratar a droga como algo satânico e que merece a guerra como solução é muito mais simples do que tratar a droga de forma consciente. E esta satanização das drogas, aliás, é bem identificada nas campanhas publicitárias que simplificam uma questão tão complexa em frases como “Diga não às drogas”, “Crack nem pensar”. A mídia não estimula a discussão sobre o tema, que tornaria a população muito mais consciente dos riscos causados pelas drogas. Comparando: deveria se tratar este problema como um trauma psicológico, que só é curado quando trazido do inconsciente para o consciente; o problema “drogas” ainda está no “inconsciente” da sociedade e a mídia, má terapeuta que é, não faz nada para tirá-lo de lá.
É, portanto, interessante observar o quanto mais cômodo é, para o Estado, a existência do tráfico de drogas. O quanto este, que é um dos maiores problemas da nossa Sociedade, serve para o Sistema. E é nosso dever exigir que os políticos saiam da sua zona de conforto!