Realizado pelos irmãos Mario e Pedro Patrocínio, ambos portugueses, o documentário “Complexo – Universo Paralelo”, de 2011, retrata o cotidiano do Complexo do Alemão, favela carioca com aproximadamente 300.000 habitantes.
Enquanto a mídia em geral trata as operações policiais nas favelas como salvadoras, os policiais como heróis, os traficantes como sanguinários e os favelados como ninguém, este documentário nos dá outra visão deste mundo afastado dos holofotes, direcionados sempre à Zona Sul do Rio. O filme dá vida ao favelado, mostra quem é, o que sente, o que pensa, o que deseja, como vive, dá alma à gente do morro; mostra qual o resultado das operações policiais no morro: medo e morte, só!; e quem é o traficante: alguém sem escolha, sem perspectiva, sem futuro, que quer algo diferente para os filhos e para a comunidade.
O documentário retrata muitas vidas do Complexo, ele dá nome aos números. Seu Zé, migrante nordestino, um dos primeiros moradores do local, que faz MUITO mais pela comunidade que qualquer político já fez. É o nome dele que deveria estar em placas e outdoors espalhados pela cidade, não o de políticos, na maioria, inúteis. Dona Célia, desempregada, mãe de oito filhos, que dá lição de desapego, esperança, fé, luta! Não são as fábulas novelescas que deveriam ser mostradas à população, mas a vida dela. MC Playboy, músico que pensa a favela, que representa a favela, que descreve a favela, as injustiças e problemas da favela. É a música dele que deveria representar o Brasil no exterior não as “garotas de ipanema” que descrevem a realidade de uma minoria da população.
Mas acho que o que mais me chocou no filme foram as entrevistas com os traficantes. Mudaram minha visão sobre eles, agora os entendo (acredito eu). Acabei de acimentar a minha crença de que não existem pessoas más (crença que já vem de tempos) com este princípio budista que ouvi do Lama Padma Samten há pouco tempo: “Todas as pessoas aspiram a felicidade, mas algumas usam meios errados pra obter a felicidade.” Este princípio encaixa-se perfeitamente para os traficantes. Só o que eles querem é o bem. O bem dos filhos e da comunidade. E conseguem! Talvez não da melhor forma, mas conseguem. Pois para os moradores, traficante é sinônimo de segurança e policial de medo.
Qualquer coisa que eu disser não vai conseguir resumir o que eles disseram, portanto aí vão algumas falas de alguns dos traficantes entrevistados:
Qualquer coisa que eu disser não vai conseguir resumir o que eles disseram, portanto aí vão algumas falas de alguns dos traficantes entrevistados:
“Eu não nasci bandido não, ninguém nasceu bandido. Eu jogava bola como qualquer outro dos meus colega. Sou cria como todo mundo, cria daqui, ta me entendedo? Foi isso [o tráfico] que eu escolhi pra mim? Foi. Ta me entendendo? Não adianta me arrepender, foi o que eu quis, eu falei, eu tenho personalidade própria. Paz eu pedia antes de ser traficante, quando eu trabalhava. Que eu ia deitar sabendo que eu tinha que acordar 5 horas da manhã pra trabalhar e não conseguia porque polícia tava na favela. Tinha que sair pra ir trabalhar, me paravam ali embaixo e falavam que a minha marmita que eu tava carregando na minha mochila tava escondendo [drogas] pra sair do morro. O que mais me deixa revoltado é que por que que eles não vem na madrugada trocar tiro? Só tem traficante na rua. Por que que eles não vem de madrugada? Deixa pra vim 11 horas da manhã, 4 hora, 4 e meia da tarde, hora que criança ta vindo do colégio. Eles sabe que nós não é covarde.”
“Fica engraçado porque as gente fica por aí achando ‘Por causa de que que nós viramo traficante?’ E por causa de que que eles viraram polícia?! Se tem tantas outras opções pra eles? Manuseia arma que nem nós, mata que nem nós.”
“A gente sabe que eles [os policiais] não vem pra resolver problema, eles vem pra tirar vida e não importa quem!”
“O morador é intocável, o morador tem que ser respeitado. As crianças tem que ser cultivada. Entendeu? A comunidade em si tem que ser protegida.”
“Meu sonho é ser feliz mano. Ver minha comunidade tranqüila, ver minhas crianças crescendo, pra eles ter uma creche pra poder estudar, ter uma piscina pra mergulhar, ter um afroreggae pra poder dançar. Ter o que eu não tive nunca, mano. Entendeu? Já que eu não posso mudar o mundo, vou tentar mudar a minha comunidade, ajudando a construir. Se eu não construo nada eu ajudo a construir, eu ajudo a cultivar,eu ajudo fazer eles crescer de uma forma diferente, de uma forma que eu não cresci. Porque ao invés de dar uma arma na mão duma criança, de brinquedo, eu prefiro dar uma bola, prefiro dar uma bicicleta, prefiro dar um bagulho... que não incentiva nunca eles a dar tiro na polícia. Só que a própria polícia incentiva eles. Sabe como? Entrando na casa de um menor de 10 anos e dando tiro na cara do pai dele. Como é que ele vai crescer? Com amor no coração?”
Os traficantes não viraram heróis pra mim não. Eles agem deforma errada, suas atitudes causam problemas, eles são sim criminosos sim. Mas pelo menos a intenção deles é boa. É ajudar, aos filhos e à comunidade. Os policiais, a mando dos governos, nem boa intenção têm. Eles não querem ajudar. Querem esconder um povo que “atrapalha” a vida dos “da Zona Sul”.
Não, minha gente, o Brasil não é o que você vê na novela das 8. Não, policial, traficante e favelado não é o que você vê nos noticiários.
Pense bem sobre tudo isso. Não, melhor que “pensar bem”: REpense bem. Se só “pensarmos” continuaremos baseados na lógica midiática, que é, sem dúvida, muito mais colorida e fácil de entender do que é a realidade. REpense e tente ver a verdade.
E não digo isto tudo para ficarem pensando “Oh céus, em que mundo vivemos?! Como posso viver feliz sabendo que tudo isto está acontecendo?!” Não! É que a verdade é o primeiro passo para mudarmos a situação. A verdade triste de hoje é a realidade feliz de amanhã! A situação nunca vai mudar se não soubermos que situação é esta. E podemos sim mudar! Na real mudar não, mudar pouco adianta. Nós temos é que revolucionar! E os MC’s Cidinho e Doca já deram a receita para a revolução em seu grandioso funk “Rap da Felicidade”:
“O povo tem a força, só precisa descobrir,
Se eles lá não fazem nada, faremos tudo daqui.”
E outra grande mensagem que os moradores da favela nos deixam, e que é mostrado no filme é a seguinte: “A nossa vida é difícil, mas não é triste. Somos felizes!” As pessoas transpiram união, alegria, simplicidade. Certa vez li um texto do Fernando Meirelles, diretor do filme “Cidade de Deus”, em que ele dizia que o período mais feliz da sua vida foi os dois anos em que ele viveu na favela Cidade de Deus para as filmagens do seu longa de grande sucesso. E os MC’s Cidinho e Doca resumiram no seu, já citado, funk, esta lição que vem da favela:
“Eu só quero é ser feliz,
Andar tranquilamente na favela onde eu nasci, é.
E poder me orgulhar,
E ter a consciência que o pobre tem seu lugar.”
Finalizo com uma frase pintada em algum muro do Complexo do Alemão, que é mostrada no documentário:
"Aproveite o seu tempo para fazer o bem. Pois este será o bem que você aproveitará do tempo que a vida lhe dar. Faça o bem. Ame!"
Gustavo Toreti
Gustavo Toreti
Foda Velho! Concordo com usted! Abraço
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