terça-feira, 24 de maio de 2011

Bolhas

            Dezenas de cheiros, na maioria ruins, centenas de sons, na maioria irritantes, milhares de passos, na maioria rápidos. Multidão de pessoas, na maioria tristes, irritadas, cansadas, com medo, com fome. Mas a elas é como se, ao seu redor, nada existisse. No universo em que, naquele instante, residem, existem apenas três coisas: elas mesmas, o destino ao qual querem chegar e o chão que os leva até lá. Como que envoltos em uma bolha, nada ouvem, nada sentem, nada cheiram, nem a criança pedindo uma moedinha pro pão, nem o vendedor que, insanamente, grita.


            Mas naquele universo de bolhas ambulantes há um vento de esperança. Um vento de mudança. Um som que, na maioria das vezes é só um som, uma bonita melodia. Mas em meio às milhares bolhas isolantes, aquele assovio representava a arte em meio à rotina, a contemplação em oposição à correria.


            Sim, era som de esperança, de mudança, mas poucos deram-se conta do que representava. Poucos viravam o rosto em direção à fonte do som. O máximo que pensavam aqueles poucos que se aventuravam a dar atenção aquela arte era: “louco”.


            Aquele som, representante da esperança de um mundo menos caótico, menos chato, mais alegre, mais belo, como que uma agulha, tinha por dever furar aquelas bolhas de desinteresse e indiferença. Mas a agulha, afiada e afinada para cumprir seu papel, não furou. Não findou a indiferença, não terminou com a chatice da correria rotineira daqueles cidadãos.


            E todos os cheiros, sons, passos, luzes, sombras, melodias, vôos, sorrisos, seguiam indiferentes para os passantes.
Gustavo Toreti

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