O filme “Em Nome de Deus” retrata o dia-a-dia de um convento no qual mulheres trabalham de forma escrava. A Igreja justifica isto dizendo que as moças devem trabalhar, se privar de prazeres, viver uma vida cheia de regras para que possam pagar seus pecados. Muitos são os aspectos interessantes de se observar que circundam esta realidade. E é interessante relacionar a realidade vivida no convento com a realidade em que vivemos.
Em primeiro lugar o trabalho realizado dentro do convento era completamente inaceitável, mas visto com bons olhos pela sociedade, os próprios pais levavam suas filhas àquele lugar. Isto porque o convento e tudo que nele acontecia estava envolto num “embrulho” muito bonito, o do pagamento de pecados, da busca pela santidade.
Outro aspecto interessante é o dos mecanismos que prendiam as mulheres àquele lugar. O que prendiam elas ali eram muito mais os muros psicológicos do que os físicos. Isto fica evidente quando uma das personagens sai do convento, tem a chance de fugir, mas acaba voltando. Era o medo de sair, o medo de não ter para onde ir, o medo da represália dos familiares, o medo de ser mal vista pela sociedade. Para quem olha o filme, quem está de fora, com certeza valeria a pena fugir e correr os riscos, mas na pele da personagem, tudo fica mais difícil visto que sabemos o que o medo faz: paralisa, por mais irreal e injustificado que ele seja. Outro mecanismo usado é o de não permitir a comunicação entre as internas, não permitindo conversas e obrigando-as a trabalhar constantemente. É um mecanismo de alienação, no sentido marxista, visto que não teriam como tomar consciência de sua classe oprimida, já que não podiam trocar idéias, criar vínculos afetivos. Existia, ainda, a alienação no sentido comum, visto que não tinham acesso a nenhuma informação externa, não podiam manter nenhum contanto com alguém que estivesse fora do convento. Outra forma de evitar uma “revolução” empreendida pela classe oprimida eram os jogos e brincadeiras que raramente, pelo que mostra o filme, aconteciam, fazendo com que as internas se acostumassem de forma mais fácil com aquela realidade degradante.
Outro aspecto interessante é que as freiras, a classe dominante, também eram vítimas do Sistema que elas impunham às internas. Poderia se dizer que menos vítimas, mas também vítimas. Elas demonstravam realmente acreditar nos princípios que levavam a escravidão das internas, elas também sofreram sob a mão pesada da Igreja, se submetendo a privações afetivas, materiais. Talvez possa se dizer que elas não eram culpadas pelo que passavam as internas, talvez aqui possamos se usar de uma referência bíblica, quando Jesus, em seus estertores, disse das pessoas que lhe impunham o sofrimento e a morte “Eles não sabem o que fazem”. Vale o mesmo para as freiras, que impõe a escravidão porque foi a elas imposta uma “verdade” mentirosa.
A nossa vida é inaceitável, tanto quanto a das internas do convento. Vivemos num sistema opressor, que escraviza as pessoas. E dizer que as pessoas, todos os 7 bilhões de seres humanos, são escravos não é questão de opinião, é fato. Não dá para discutir que quase ninguém trabalha porque quer, no emprego que quer e faz o que quer com o dinheiro que ganha. Trabalhamos porque somos obrigados, porque o Sistema nos impõe, seja diretamente, pois sem trabalho não ganhamos dinheiro e assim restringimos e muito as condições materiais a nossa disposição, seja indiretamente, ao ser marginalizado pela sociedade aquele que não trabalha. Se isso não bastasse, pouquíssimos são aqueles que trabalham no que gostam e pouquíssimas são as mercadorias que são compradas livremente. Num real estado de liberdade desejaríamos muito menos, do ponto de vista material, do que desejamos e compramos. Compramos o que compramos porque somos, através da coerção social, obrigados e porque sofremos com apelo emocional midiático. Somos, portanto, escravos: fazemos coisas que não queremos (o trabalho), para obter algo que não quereríamos naturalmente (o dinheiro), para obter com ele, mercadorias que não desejamos realmente. Mas como a Igreja se usava de dogmas como desculpa para escravizar as internas dos conventos, o Sistema em que vivemos também se usa de dogmas para este fim: “A democracia em que vivemos, por pior que seja, é o melhor sistema possível”, “O anarquismo é uma utopia”, “O dinheiro é necessário para incentivar as pessoas a fazer as coisas.”, entre outras.... A escravidão moderna, portanto, a qual todos estamos submetidos, é vista como boa, por mais absurdo que isto possa ser.
Há, também, paralelo com o fato de os pais levarem as filhas até o convento. Na nossa realidade são os pais que introduzem os filhos neste mecanismo doente, através do incentivo a competição, a compra. E em ambos os casos, tanto os pais do filme levando suas filhas para o convento quanto da nossa realidade, fazem isto cegamente, porque acham que realmente é o melhor para seus filhos.
São as desculpas que o Sistema vigente usa para se manter, os dogmas citados anteriormente, que, junto de outros mecanismos, prendem a população. Embora esteja submissa à uma prisão física, através do uso de violência para coibir manifestações, impor interesses imperialistas a países pobres, a população está muito mais presa psicologicamente, como estavam as internas do filme. A população tem medo de mudar, de sair às ruas, pois quem o faz é ridicularizado, é considerado louco. Hoje a sina do revolucionário é lutar pelo povo e ser por ele ridicularizado. Além disto a população, vitima da escravidão, contribui, através do consumismo, imposto pela mídia através de artimanhas psicológicas, com a própria escravidão.
Na situação retratada pelo filme a classe dominante, as freiras, criavam formas para que a classe dominada, as internas, não pudessem criar laços afetivos e trocar idéias, impossibilitando a tomada da consciência de classe. Podemos transpor isto para a nossa realidade. O tempo de trabalho a que somos submetidos, muito maior do que seria necessário se toda a tecnologia que já existe fosse colocada em prática, (já se diz que em pouco tempo o Ser humano não precisaria mais trabalhar), além da profusão de entretenimento ao nosso alcance, diminuem e muito a troca de idéias e a criação de laços afetivos, diminuindo a quantidade de pessoas conscientes quanto a sua condição de oprimidos. Além da criação da alienação (“interna”) quanto a consciência de classe, cria-se a alienação (“externa”) quanto ao verdadeira estado das coisas: quase nada sabemos sobre o verdadeiro estágio da tecnologia que já existe, poderíamos muito mais com o que já existe, mas que não é de interesse comercial.
Para finalizar as comparações entre o filme a nossa realidade traço um paralelo entre as freiras e a burguesia, classes dominantes das suas respectivas realidades. A relação que faço é que ambas são, também, vítimas da sua realidade, do seu Sistema. Enquanto que as freiras são vítimas dos dogmas religiosos como as internas, a burguesia é vítima, tanto quanto o proletariado, do dinheiro. Exemplo interessante, do próprio filme, que explica por que a burguesia é também vítima do dinheiro é o momento em que as internas Bernardette e Rose fogem do convento. Na fuga encontram-se com a irmã Bridget, que pega a chave que daria a fuga às internas. Sob uma ameaça de morte ela continua segurando a chave, mas quando é oferecida a chave do cofre em troca da chave para sair do convento, ela aceita soltar. Assim são os burgueses: preferem o dinheiro à própria vida, são enlouquecidos pelo dinheiro.
Não é, portanto, consciência de classe que devemos tomar, mas consciência de Humanidade. Todos, do mais rico ao mais pobre são, juntos, vítimas de algo superior, o Sistema Monetário. Não é uma luta da classe oprimida contra a classe opressora que deve ser empreendida, mas uma luta da humanidade contra o seu inimigo comum, o Dinheiro. Uma revolução das internas do convento contra as freiras resolveria o problema daquelas internas, mas todo o Sistema se manteria funcionando, só uma luta das internas e das freiras juntas poderia resolver o problema. Assim é em nossa sociedade: uma revolução para tirar do poder aqueles que nos dominam teria que acabar com as hierarquias (junto das instituições), pois apenas acabar com os que hoje nos dominam só serve para colocar outros a nos dominar.
É interessante observar que a realidade terrível mostrada no filme é bastante próxima, em muitos sentidos da realidade que vivemos. Pode-se ver o filme como uma alegoria da nossa realidade. E transpor uma realidade degradante externa à nossa para a nossa realidade é um bom modo de nos darmos conta de qual é, em verdade, a realidade vivida por nós. É como mostrar a um paraplégico, que por não poder mover a cabeça não pode nem mesmo saber que é paraplégico, embora sofra as conseqüências de sê-lo, um outro paraplégico. Mostrar ao primeiro o quanto aquele sofre e dizer “Assim é a sua vida.”